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Notícias
24 de junho de 2015

A fibromialgia segundo o Dr. Kurland


O texto a seguir publicado pode ser um pouco longo (demorei imenso tempo a traduzi-lo o melhor que posso e sei), mas parece-me extremamente interessante. Aqui encontrei, pela primeira vez, reunidas, praticamente todas as referências que normalmente são descritas num ou outro artigo. É como se fosse um longo resumo do que acontece na fibromialgia. Evidentemente, do meu ponto de vista, é mais uma teoria possível para explicar a doença e para conseguir viabilizar um tratamento eficaz, ainda multidisciplinar. Importante é que um e outro estudo que aparece, na minha ignorância, vai contribuindo para uma imagem mais definida da fibromialgia, sendo que, muitas vezes, artigos e estudos diferentes referem as mesmas ocorrências.

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A fibromialgia é uma doença crónica, cíclica e proteiforme, quer dizer, que se apresenta sob os aspectos mais diversos. Distingue-se das outras doenças pelo facto de não afectar um tipo de célula em particular nem um orgão específico. Manifesta-se por uma miríade de sintomas que, aparentemente, não estão ligados uns aos outros. Mais, existe um número infinito de combinações de sintomas entre si com variações de um dia para o outro.
São ainda diferentes os primeiros sinais que aparecem em cada um dos doentes, tornando difícil saber com exactidão quando se manifestou a doença pela primeira vez. Com o tempo, no entanto, é possível identificar os denominadores comuns da doença: impacto negativo na vida activa e na vida de todos os dias, perturbação das relações familiares e com os outros, perturbação psíquica e, num grande número de casos, uma invalidez mental e física consideráveis.


Os sintomas mais comuns da fibromialgia


Problemas do sistema nervoso

Fadiga, irritabilidade, nervosismo, ansiedade, depressão, problemas de memória e concentração (nevoeiro cerebral), apatia, insónia, sono não reparador, despertares nocturnos frequentes, visão turva, tonturas, vertigens ou equilíbrio instável, dor de cabeça, enxaquecas.




Problemas musculares e osteoarticulares

Dor generalizada ao nível muscular, dos tendões e ligamentos, com frequente rigidez matinal. As dores podem ser de todas as formas e tipos: lancinantes, trespassantes, semelhantes a um murro, picadelas, contracturas, queimaduras, de sensação pseudo-gripal, com todas as variantes possíveis. Regiões que sofreram um traumatismo ou uma cirurgia anteriores são mais facilmente afectadas. As dores temporo-mandibulares são frequentes, associadas a dificuldade na mastigação, assim como dor facial por vezes atroz e cefaleia cuja origem é descrita a partir da nuca. A dor de cabeça pode ser generalizada ou afectar apenas metade do crânio ou afectar apenas a região da nuca.
Podem ainda associar-se dores fortes nos tornozelos. Frequentemente aparecem dores articulares, com ou sem inchaço nas articulações ou ao lado das articulações, nas costas, pulsos, dedos e joelhos. Os músculos podem ainda sofrer ligeiras fasciculações ou convulsões e pode ainda manifestar-se o síndrome das pernas irrequietas. Os pacientes descrevem frequentemente uma espécie de descarga eléctrica nos músculos ou ainda formigamento ou uma fraqueza muscular generalizada.



Problemas gastro-intestinais

Em 60% dos casos existe o síndrome do intestino irritável associado a gases, inchaço abdominal, cãibras abdominais, obstipação ou diarreia (ou ainda alternância entre as duas). Por vezes aparecem também dores gástricas com sensação de queimadura, náuseas, dispepsia, hiperacidez gástrica e mau gosto na boca.





Problemas genito-urinários

65% das mulheres fibromiálgicas apresentam dores da esfera genito-urinária.
Vulvodínia (15%), ou seja, dores na vulva com comichão e sensação de queimadura nos pequenos lábios (vulvite) ou no orifício vulvar e sua periferia (vestibulite), com ou sem irritação visível da mucosa; espasmos vaginais ou cãibras vaginais; dores sexuais com ou sem secura vaginal.
Em 25% das mulheres aparece micção frequente diurna e nocturna, muitas vezes de uma urina concentrada; picadas urinárias, dificuldade na micção, queimaduras urinárias com ou sem infecção, história de infecções urinárias recorrentes no contexto da cistite intersticial crónica e espasmos na bexiga. A síndrome pré-menstrual é, habitualmente, mais intensa. Todos os problemas da fibromialgia apresentam agravamento pré-menstrual.


Problemas dermatológicos

Sensação de formigueiro, de comichão de vibração eléctrica da pele; toda a espécie de manifestações cutâneas, pruriginosas ou não; eczema, fendas, borbulhas, furúnculos, neurodermatite ou dermatite seborréica; sensação de queimadura intensa na palma das mãos e na planta dos pés, às vezes com inchaço; secura cutânea; sensibilidade exagerada ao toque, suor profuso com ou sem afrontamentos. Pode surgir uma comichão intensa em qualquer parte do corpo, muitas vezes com intensidade maior durante a noite. Unhas secas e quebradiças, cabelo de má qualidade, caído e com um crescimento medíocre. Por vezes aparece dermografismo - a pele torna-se inchada e inflamada quando picada ou arranhada por um objecto rombo.

Outras manifestações

Congestão nasal, boca seca, gosto metálico na boca, 'assobios' ou barulhos anormais nos ouvidos, entorpecimento das mãos, dos pés ou na cara; formigueiros; cãibras nas pernas e pés; temperatura corporal baixa e grande sensibilidade ao frio; grande susceptibilidade a infecções e alergias de qualquer tipo; hipersensibilidade ao barulho, à luz, aos odores e aos produtos químicos; inchaço das pálpebras e das mãos com predominância matinal; excesso de peso; olhos secos e irritados; palpitações; síndrome hipoglicémica com desejo irresistível de alimentos açucarados.
Todas as células do corpo podem ser afectadas pela doença, todos os tecidos podem ser afectados. Todos os sintomas, tão diversos como são, estão ligados a uma mesma doença, a fibromialgia, e todos partem da mesma origem.


Quando é que o termo fibromialgia foi usado pela primeira vez?

A síndrome da fibromialgia foi oficialmente reconhecida como entidade clínica por direito próprio, pela Organização Mundial de Saúde (OMS), quando da Declaração de Copenhaga, a 1 de Janeiro de 1993. Foi declarada como sendo a causa mais frequente de dores musculares.


Prevalência na população em geral

A fibromialgia está presente em todas as etnias, em todo o mundo. A proproção referente ao sexo é de 85% de mulheres para 15% de homens. Os reumatólogos falam da fibromialgia como sendo a afecção mais frequente que aparece nas suas consultas.


A fibromialgia é uma doença genética. A que idade se manifesta?

A fibromialgia é uma doença genética, hereditária. Pode afectar uma família inteira, como por exemplo a mãe e as suas duas filhas. Se ambos os pais forem fibromiálgicos, todas os seus filhos serão fibromiálgicos (existe uma forma pediátrica de fibromialgia).
O Dr. Paul St. Amand tratou membros de 3 gerações de uma mesma família, incluindo uma menina de dois anos assim como pacientes nos quais a doença só se manifestou após os 70 anos. Conhece-se pelo menos um paciente que desenvolveu a doença aos 80 anos. Este enorme leque de idades em que a doença pode aparecer é impossível de explicar pela presença de um só gene defeituoso. É por isso que se pensa que vários genes poderão estar em causa na patogénese da fibromialgia. O número de genes responsáveis (desde genes recessivos, com menor impacto até genes dominantes, mais importantes), permite um grande número de combinações entre eles, que vão, por sua vez, determinar a idade da aparição da doença bem como a severidade dos sintomas.
Entre aqueles que tenham apenas um defeito menor na sequência de aminoácidos dos genes em causa, a doença pode nunca manifestar-se ou manifestar-se de forma ligeira, ainda que transitoriamente ou episodicamente.
Como 85% dos fibromiálgicos são mulheres, parece lógico admitir que, ao menos um dos genes defeituosos, esteja localizado no cromossoma X.



Os factores que induzem o aparecimento da doença

Com graus variáveis para cada um e sob a influência individual do potencial genético defeituoso, certos traumatismos podem precipitar o aparecimento da doença. O factor gatilho pode ser um acidente, uma infecção, um qualquer acto cirúrgico, um traumatismo psicológico, stress ou outras tensões nervosas. Estes factores favorecem o aparecimento da doença mas não são, de forma nenhuma, a causa. Podemos igualmente verificar que as zonas dolorosas pela fibromialgia se sobrepõem, frequentemente, às regiões do corpo previamente traumatizadas, acidentadas ou sujeitas a cirurgia; esta observação não exprime um nexo de causalidade.



A fibromialgia é uma doença metabólica


O papel do fosfato

A fibromialgia é uma doença metabólica. A incapacidade de produzir a energia apropriada, adequada, nos tecidos afectados, explica o conjunto dos sintomas da fibromialgia. Os diversos genes defeituosos alteram a capacidade dos rins de eliminarem os fosfatos. A fibromialgia deve-se a uma anomalia na excreção renal dos fosfatos, de origem genética.

Tudo começa à nascença com uma minúscula retenção dos fosfatos. Em breve os ossos são sobrecarregados na sua capacidade de desempenharem o seu papel habitual de armazenamento dos fosfatos. Estes vão gradualmente disseminar-se e acumular-se um pouco por todo o lado, para acabarem por atingir níveis críticos em certos tecidos, os músculos e tendões em particular. Juntamente com o cálcio, os fosfatos em excesso penetram nas células e, juntos, iniciam as perturbações metabólicas que vão conduzir aos sintomas da fibromialgia.

Com efeito, a retenção de uma substância bioquímica dentro de uma célula provoca uma disfunção metabólica que vai gerar uma incapacidade de responder às necessidades energéticas. As células utilizam a sua energia sob a forma de trifosfato de adenosina (ATP) para desempenharem as suas funções metabólicas e outras que nos são vitais. A retenção de fosfatos interfere com a formação de energia nas células afectadas. As funções celulares ficam comprometidas e, se a energia for insuficiente, nada funcionará bem.


O papel do cálcio

Para que o equilíbrio eléctrico seja mantido numa célula, duas cargas negativas do ião fosfato são contrabalançados com duas cargas positivas do cálcio. O cálcio tem uma função primordial na célula. Normalmente encontra-se no retículo endoplasmático, o reservatório celular. Assim que acontece uma estimulação, o sinal de acção é transmitido ao retículo endoplasmático o qual vai libertar cálcio no citosol, o líquido que enche o citoplasma celular. A quantidade de cálcio libertada é exactamente proporcional à tarefa que o requisita, nem mais, nem menos. O cálcio é o elemento gerador final que desencadeia a acção celular.

A célula instruida para agir, continua a fazê-lo até que os sinais provenientes do cálcio parem. Para interromper estes sinais as células possuem bombas enzimáticas que utilizam o ATP como fonte de energia, como todas as funções metabólicas do organismo. Estas bombas enzimáticas têm por função levar o cálcio até ao seu reservatório ou expulsá-lo da célula.

Uma vez que, na fibromialgia, as capacidades energéticas são pobres, por causa da insuficiência de ATP, o cálcio acumula-se no citosol onde já não deveria estar porque já não é reclamado nem desejado para uma determinada tarefa. O resultado é como se, os tecidos com excesso de fosfatos, se encontrassem continuamente estimulados, dia e noite, até ao ponto da exaustão.

A palpação dos fibromiálgicos põe em evidência numerosos inchaços e 'altos' nos músculos, tendões e ligamentos. Estas zonas estão em tensão 24 horas por dia. Apenas o cálcio pode ser considerado responsável por uma estimulação incessante dentro do citosol das células. Normalmente as células respeitam as fases de repouso nas suas funções metabólicas. Nos fibromiálgicos é esta ausência ou falta da qualidade destas fases de repouso que geram toda a sintomatologia. Num ou outro grau isto afecta ou afectará todas as células do organismo.
Resumindo, o excesso celular em fosfatos, perturba a formação de uma energia adequada (ATP). Isto traduz-se num excesso de cálcio dentro da célula que a vai estimular e manter em hiperactividade. Esta disfunção celular conduz a uma síndrome de hiperactividade metabólica e de exaustão energética. Só a restauração de uma produção normal de ATP pode restabelecer estes abusos metabólicos.


Biópsias musculares

Biópsias feitas em lesões do trapézio foram realizadas em doentes com fibromialgia. Diferenças significativas foram reconhecidas em biópsias de controle feitas em indivíduos sem fibromialgia: redução de 70% nos níveis de ATP e de 21% da fosfocreatina, rica em fosfatos de alta energia. Todas as fibras de uma mesma amostra se mostraram não afectadas, o que confirma que não se está em presença de uma doença muscular congénita. Um outro estudo revelou níveis baixos de ATP no interior dos glóbulos vermelhos dos fibromiálgicos.

Resultados biológicos

Diversos estudos biológicos confirmam a extensão dos danos causados pela fibromialgia. Demonstrou-se a existência de perturbações significativas, em maior ou menor grau, na produção de hormonas, de neurotransmissores e de diversas outras moléculas e substâncias químicas.
Verificam-se baixos níveis: da hormona do crescimento, do factor de crescimento semelhante à insulina tipo 1 (IGF-1), serotonina, cálcio livre ionizado, calcitonina, do cortisol livre na urina, de certos amino-ácidos, do neuropeptídeo Y, da hormona de estimulação da tiróide (TSH), e na contagem das células T.

Comprovou-se o aumento dos níveis de outros: prolactina, substância P, a enzima de conversão de angiotensina e do ácido hialurónico, num só estudo. 

As biópsias cutâneas mostraram um excesso de citoquinas e de imunoglobulinas G na derme.

Tantas alterações nos testes biológicos mostram que numerosos tecidos e sistemas podem ser afectados pela fibromialgia.


Análises laboratoriais

Não existe um teste específico de laboratório que confirme o diagnóstico de fibromialgia.
As radiografias, TAC's, ressonâncias ou outros não mostram nada.
No entanto, a história detalhada da doença (anamnese) irá revelar a cronologia e levar ao diagnóstico. Este último será confirmado pela existência de inchaços e papos num certo número de músculos, tendões e ligamentos, quando feita uma palpação minuciosa de todo o corpo. O resultado desta palpação deve ser representado num diagrama. Este exame não só confirma a doença como materializa, autentica e credibiliza as queixas do paciente.
Nos doentes fibromiálgicos a velocidade de sedimentação é normal, uma vez que NÃO É uma doença inflamatória. Se houver uma velocidade aumentada numa pessoa com fibromialgia, deve ser investigada.


Doenças associadas

Em mais de 20% dos casos a fibromialgia está associada a outras doenças tais como, doenças reumatológicas e sistémicas com diversas anomalias imunológicas (doença de Behçet, lúpus eritematoso sistémico, doença de Crohn, doença de Sjögren), hiperparatiroidismo, hipotiroidismo, etc.


Fibromialgia e hipoglicémia

A síndrome da hipoglicémia, por si só uma entidade clínica, pode ser induzida ou intensificada pela fibromialgia. 40% das mulheres e 20% dos homens fibromiálgicos apresentam hipoglicémia ou intolerância aos hidratos de carbono. Fala-se de 'fibroglicémia' quando as duas patologias coexistem. Os sintomas da hipoglicémia coincidem com os da fibromialgia.

Os problemas agudos de hipoglicémia são facilmente identificáveis e não existem em todos os doentes fibromiálgicos. Aparecem nas 3 ou 4 horas que se seguem a uma refeição e são possíveis durante a noite: ataques de pânico, tremuras nas mãos ou em todo o corpo, suores súbitos, sensação imperiosa de fome, dor de cabeça, palpitações ou arritmia cardíaca, ansiedade severa, mal-estar ou desmaio súbito.

Os problemas de hipoglicémia crónicos podem existir independentemente do nível de açúcar no sangue. Devem-se a uma astenia (fraqueza) metabólica constante, gerada pela mais pela hipoglicémia do que a quedas de açúcar no sangue motivadas por regulações hormonais.

As cefaleias são sentidas como se houvesse faixas concêntricas à volta da cabeça. Além disso, fadiga, insónia, irritabilidade, nervosismo, emotividade, suores, mal-estar, assobios nos ouvidos, problemas de memória e concentração, formigamentos nas extremidades e na cara, cãibras musculares, dores abdominais, inchaço abdominal e diarreia. Notável é o facto destes sintomas serem aliviados por uma refeição e agravados pela fome.

A maior parte dos doentes que apresentam 'fibroglicémia' têm um desejo constante e irreprimível de alimentos ou bebidas açucaradas, na tentativa, muitas vezes vã, de conseguir alguma energia. Açúcares e alimentos ricos em amido são rapidamente convertidos em glucose no processo biológico da digestão e, por isso, o organismo priveligia esta contribuição. Infelizmente, nos 'fibroglicémicos', cada ingestão açúcarada vai saturar rapidamente o mecanismo metabólico de moléculas de glucose, provocando uma libertação pancreática de insulina, que vai reduzir este aporte súbito de glicémia, dirigindo a glucose para as células musculares, hepáticas, de gordura e outras.
Além disso, e isto é o que nos interessa aqui, em especial, a insulina está envolvida no aumento da reabsorção renal de fosfato mas também na sua reintrodução nas várias células do corpo. Assim, as flutuações dos níveis de insulina só irão intensificar os sintomas da fibromialgia.

Os sintomas da hipoglicémia confundem-se com os da fibromialgia. Estes pacientes são confrontados com um sério problema metabólico. As mudanças no comportamento alimentar tornam-se essenciais. Qualquer compromisso na dieta levará ao exacerbamento dos sintomas. Hipoglicémia e fibromialgia devem ser tratadas em paralelo. A supressão de açúcares e outros alimentos ricos em amido, evita as flutuações de glicémia e, por consequência, os picos de insulina nefastos.
Está já demonstrado que os fibromiálgicos possuem uma capacidade reduzida para estimular a parte hipotálamo-hipófise do eixo hipotálamo-hipófise-suprarenal, assim como o sistema simpático adrenérgico, conduzindo a uma resposta insuficiente da hormona pituitária-adrenocorticotrófica (ACTH) e da adrenalina face a um estado de hipoglicémia. A ineficácia dos sistemas neuroendócrinos nos fibromiálgicos pode explicar melhor a sobreposição dos sintomas fibromiálgicos e hipoglicémicos. Na ausência de 'fibroglicémia' nenhuma dieta será necessária.

A síndrome de fadiga crónica (SFC)

Para a maior parte dos pacientes os dois termos ou condições, fibromialgia e síndrome de fadiga crónica, são coexistentes. Para outros, um dos sintomas ou um grupo de sintomas é predominante. Não existe uma síndrome de fadiga crónica, estritamente falando, exclusiva.
Um questionário bem conduzido e uma palpação minuciosa porão em evidência a sua existência simultânea. Em graus diversos de intensidade, todos os sintomas da síndrome de fadiga se encontram nos critérios da fibromialgia. 
Estamos a lidar com a mesma afecção que se apresenta sob diversos aspectos, em função do limiar de dor individual e das áreas, sistemas ou orgãos afectados e que mais se destacam. 
Os que têm um limiar de dor muito alto podem sentir apenas a fadiga como problema dominante. A anamnese (historial da doença) encontrará sintomas como o cólon irritável, ondas de dor vulvar ou ligeiros problemas urinários, associados a algumas queixas dolorosas musculares e tendinosas, masa todas estas bem mais modestas ou insignificantes comparadas com a importância da fadiga, da depressão ou da disfunção cognitiva.

Dependendo da gravidade das lesões no sistema nervoso, certos fibromiálgicos, para além da fadiga, sofrem uma perda importante da memória imediata ou de curto prazo. Esquecem o que acabaram de lhes dizer ou não se lembram do sítio onde puseram determinada coisa. Acrescendo a isto pode surgir uma perda do sentido de orientação ao ponto de se perderem em locais familiares. No meio de uma conversa ou actividade podem perder o "fio à meada". Qualquer raciocínio ou um simples exercício de dedução pode tornar-se difícil ou mesmo impossível. Alguns não conseguirão ler por falta de concentração, por incapacidade de novas aquisições ou por perda de memória dos nomes. Alguns esquecem-se de encontros marcados, projectos imediatos ou não se lembram se pagaram ou não as facturas.
Estes pacientes tornam-se hipersensíveis aos ruídos, às luzes fortes, aos odores. Choram com facilidade e enervam-se à menor contrariedade. É importante reconhecer em todos estes problemas cognitivos e estas hipersensibilidades sensoriais e emocionais, as expressões de uma mesma patologia, a fibromialgia.

Fibromialgia e a sua incidência nos problemas osteoarticulares

Na fibromialgia as articulações são um dos locais que permanecem mais tempo sem ser afectadas pela acumulação de fosfatos. A fibromialgia não é uma doença osteoarticular porém dores nas articulações, com ou sem inchaço, vermelhidão e aquecimento local, são frequentes. Entregue a si mesma, depois de anos de evolução e um inevitável agravamento, a fibromialgia acabará por provocar osteoartrite, devida à precipitação de cristais de fosfato de cálcio.

Como se explica o aspecto cíclico da fibromialgia?


Inchaços nos tecidos

Os inchaços e papos que se encontram à palpação ao nível dos tendões, dos ligamentos e principalmente nos músculos, são mais ou menos dolorosos, ou não dolorosos de todo, dependendo de pressionarem ou não terminações nervosas. Um pequeno papo pode ser mais doloroso do que um grande inchaço. Tudo depende, também, do limiar de dor de cada um. As dores passam de um sítio para outro, variam de um dia para outro ou mantêm-se fixas em localização e intensidade.

90 a 95% destes inchaços correspondem a água acumulada sob pressão. Todas as células fibromiálgicas sofrem de constantes acumulações de água, excesso de fosfatos, cálcio e outras substâncias químicas. É o líquido extra-celular que, penetrando nas células, provoca mais dor e mais pressão dependendo do impacto sobre o tamanho dos inchaços e papos. Assim que uma parte da água é expulsa, o seu tamanho reduz e a dor diminui. Com efeito, o fluxo sanguíneo sofre flutuações qualitativas e quantitativas (volumétricas), dependendo da importância da drenagem celular e do número de locais envolvidos.


O papel essencial dos rins

No fibromiálgico, tudo é função da capacidade dos rins para eliminar os fostatos. O rim controla os níveis de fosfatos no sangue. Estes últimos são filtrados quando o sangue passa nos glomérulos renais e seguem o seu caminho pelos túbulos renais. Uma outra via de passagem, evitando a filtragem glomerular, faz-se directamente do sangue para as células renais e destas para os túbulos. Os fosfatos são então eliminados com a urina podendo também ser reabsorvidos pelas células renais e reintroduzidos na circulação sanguínea. O rim retém ou elimina os fosfatos dependendo das necessidades do organismo.

O rim fibromiálgico não é suficientemente rápido a excretar os fosfatos na urina. Isto deve-se a um déficit enzimático de origem genética que perturba o processo fisiológico normal do rim. O resultado é um regresso excessivo de fosfatos à corrente sanguínea que mantém um nível anormalmente alto.

O organismo não consegue tolerar este aumento de fosfatos no sangue na medida em que estes últimos estão ligados ao nível de cálcio no sangue. Se o nível de fosfatos sobe, o de cálcio tem necessariamente de cair, o que o orgnismo também não aceita. Nesta altura, as quatro glândulas paratiróides situadas no pescoço vão responder segregando paratormona, a hormona paratiróide, cujo papel é manter constante o nível de cálcio. Sendo certo que, na fibromialgia, os fosfatos não são suficientemente excretados nem podem estar em excesso no sangue, uma certa quantidade acaba por ser transferida para o osso. Assim que os ossos estejam saturados, os fosfatos vão depositar-se em todo o tipo de células do organismo. Então vai haver uma entrada de água nas células, acompanhada por cálcio, a fim de diluir a concentração intracelular dos fosfatos, evitando a cristalização.


Os inchaços dos tecidos reaparecem e toda a sequência metabólica se repete, com o cortejo de pressão, dor, todos os sintomas habituais, cognitivos e outros, como se tudo recomeçasse, talvez com outros sintomas ou outras localizações dolorosas conforme os fosfatos se alojem noutros sítios. Cada ciclo termina definido pela actividade metabólica do momento. Alguns tecidos serão atingidos apenas esporadicamente. Cada ciclo é seguido de um período de repouso; da qualidade e duração desses períodos de repouso vai depender a permanência dos sintomas.

Com o tempo, inchaços e papos serão mais numerosos. Os sintomas agravam-se à medida que o excesso de fosfatos se vai adicionando ao existente, diminuindo a produção energética que se torna, quase constantemente, menor do que deveria. Os períodos de repouso serão cada vez mais curtos. A gravidade da doença é depende da duração de evolução da mesma.

Os critérios oficiais da fibromialgia mencionam um mínimo de 11 pontos dolorosos sobre 18 existentes. Os pacientes, normalmente, relatam dor generalizada nos músculos, tendões e ligamentos ou na sua periferia. Estas dores são descritas como móveis de um sítio para o outro, variando em intensidade de um dia para outro ou então fixas em determinados sítios.

Estes critérios estipulam dor e não inchaço ou papos. O conceito dos pontos dolorosos parece-nos (ao Dr. R. St. Amand e ao Dr. Kurland) um pouco arbitrário. Não levam em conta o limiar de dor de cada indivíduo que faz com que em alguns todo o corpo esteja hipersensível e noutros seja necessário aplicar uma forte pressão para provocar dor.

O que dizer quando todos os sintomas da fibromialgia estão reunidos mas se encontraram apenas 9 pontos dolorosos? Volte daqui a 6 meses, se faz favor, quando tiver mais alguns pontos? E o que dizer se forem palpados 20 pontos dolorosos sendo a maioria fora das zonas "oficialmente" descritas?
Este conceito pode ser pejorativamente restritivo. Sem contar que os inchaços ou papos palpados podem ser dolorosos ou não, dependendo do facto de se encontrarem ou não numa terminação nervosa. Sem contar que a síndrome de fadiga crónica, com a mesma origem genética, reúne os mesmos sintomas mas poucas zonas dolorosas. Por isso prefiro falar de inchaços e bolas e representá-los num diagrama, sem ter em conta os pontos "oficiais".





Dr. Norbert Kurland

O Dr. Kurland nasceu em França, em 1949. Formou-se na Faculdade de Medicina de Paris, especializando-se de seguida em Reumatologia, trabalhando durante 15 anos no Serviço de Reumatologia da Fundação Rothchild em Paris. Durante esse tempo estudou Ortopedia para vir a especializar-se na cirurgia do pé.  Diplomou-se igualmente em Hidrologia e Climatologia Médicas, sucedendo ao seu pai numa actividade sazonal estival em Evian-Les-Bains. Finalmente, é também diplomado em Neuralterapia e Mesoterapia, terapias anti-dor, consideradas eficazes.

O Dr Kurland fez a sua 'aliya' (emigração de um judeu para Israel) em 1997. Durante 2 anos esteve no serviço de cirurgia da coluna vertebral no Hospital Meir de Kfar Saba assim como foi médico consultor numa clínica de dor. Já nessa altura a sua experiência em fibromialgia lhe garantia um renome que lhe permitiu instalar-se a título privado em Kfar Saba. O Dr. Kurland é o único médico em Israel afiliado no "Fibromyalgia Treatment Center" em Santa Mónica, Califórnia e recomendado por este centro de reputação mundial.


Original

Publicação sugerida por Helena Nunes
Tradução livre de fibromialgia em PT
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12 comentários:

  1. Muito interessante, obrigada

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  2. Muito interessante essa matéria completa!

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  3. Nádia Ap. S. Feliciano2 de julho de 2015 às 16:49

    Muito bem explicado, obg.

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  4. Traduz tudo o que eu sinto e não consigo explicar. É uma doença que ninguém entende a dor que sentimos e o quanto se sofre. Você se sente impotente e muitas vezes inútil.

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  5. tudo que dr fala que realmente sentimos quem sofre desta doenca sabe mas vamos tocar a vida se cuidando

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  6. Além das dores no corpo cíclicas, nos tendões, suor excessivo,fadiga absurda, sono nunca reparador,enxaquecas , quase que diárias, memória péssima, dor no ouvido, sensibilidade excessiva a luz, som, dores constante de estômago, alergias na pele etc a novidade que estou reparando em mim é a Fibromialgia e hipoglicémia. Chego a tremer de fome, a sensação é que vou desmair naquele instante. Pareço uma formiga louca por açucar, que doença terrível essa fibro!

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  7. Ta, e como equilibrar fosfato E calcio no corpo? o que ele propoe?

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  8. Equipe multidisciplinar + viver para se tratar... Mudar a vida toda - se quiser!

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  9. Como eu encontro um refleto de todo que eu vivo no seu artigo a maior parte dos simtomas referidos são bem presentes no meu dia a dia, mesmo que eu propria por vezer metia em duvida que tudo fosse um derivado da fibromialgia, mas tenho que talvez mais uma vez... ser realista e aceitar e continuar nesta luta que é de aprender a viver com esta doença que controla o meu corpo mesmo quando presto resistência e ir vivendo...obrigado por toda essa infornação

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  10. Achei maravilhosa a explicação do Dr.Parece que estava falando pra mim.Sinto a maioria desses sintomas.As vezes fico chateada,pois aparentemente não temos nada mas,realmente só quem sofre sabe como é difícil aceitar. gostaria de saber como controlar o fosfato e o cálcio no nosso corpo.

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  11. Perfeita explicação de vários dos meus sintomas. Agora as dores e a fadiga, incomodam-me especialmente os suores (São constrangedores) e as infecções de pele difíceis de curar. O que fazer com esses sintomas?

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