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2 de abril de 2015

Morgan Freeman e a fibromialgia



 Em Agosto de 2012 a revista Esquire publicou um fascinante artigo sobre o actor Morgan Freeman. No artigo, o autor, Tom Chiarella, descreve o dia que passou com Freeman na sua casa, no Mississipi. Enquanto andavam pela propriedade de Freeman, Chiarella reparou que ele estava com dores.

A seguir um excerto do artigo onde Freeman revela a causa da sua dor.


De vez em quanto ele agarra o ombro esquerdo e estremece. Dói enquanto ele anda, quando está sentado, quando se levanta do sofá e quando ele tropeça ao passear no prado. Mais do que dói. É como uma espécie de agonia, embora ele nunca o mencione.
Há alturas em que ele não consegue deixar de o mostrar. O acidente de carro, há quatro anos atrás, durante o qual o carro capotou fez com que Freeman e um amigo tivessem que ser desencarcerados. Apesar da cirurgia para reparar os danos nos nervos, Freeman ficou com uma mão inutilizada. Durante a maior parte do tempo a mão está rigidamente comprimida por uma luva para evitar que o sangue ali se concentre. A sua dor é uma garra, um disparo gelado pelo seu membro, relativamente inútil, acima. Ele não gosta de o mostrar mas há alturas em que se perde num esgar de dor. É um gesto tão forte, tão fora do comportamento normal dele que até parece que está a representar.

"É a fibromialgia", diz, quando lhe perguntam. "Pelo braço acima e pelo braço abaixo. É aí que se torna tão mau. É uma dor excruciante."

Isto significa que Morgan Freeman já não consegue pilotar o seu jacto como costumava fazer, um hobby que ele encontrou aos 65 anos. Também já não consegue velejar. Às vezes navegava até às Caraíbas e escondia-se durante 2 ou 3 semanas. "Era um isolamento completo", diz. "Era a melhor forma para eu encontrar sossego, para ter tempo para ler." Já não. Só com um braço não se sente seguro. Não pode conduzir, pelo menos com mudanças manuais, como gostava de fazer, que é como quem diz velozmente, dedicado inteiramente ao que um carro pode fazer. Também não pode montar a cavalo tanto como o fazia, uma vez por dia.

Nunca se refere a nada disto como uma perda. Como poderia ser outra coisa qualquer? Nunca fala de injustiça. "Há alturas para mudanças como esta. Tenho que seguir em frente para outras coisas, outros conceitos de mim próprio. Jogo golfe. Ainda funciono. E posso ser bastante feliz só a passear por aí."
Espera. Como consegue ele jogar golfe com a sua asa assim cortada? Como consegue balançar um taco só com um braço?
 "Jogo só com uma mão", diz-me. "Com o meu braço direito:"
Como é que isso funciona para si?
"Veja por si próprio, vou jogar hoje, às 3 da tarde."


Falar ou não falar - eis a questão.

A revelação de que Freeman tem fibromialgia alastrou como fogo pela comunidade com FM.
Finalmente, uma celebridade assumindo que foi diagnosticada com fibromialgia. Uma mão-cheia de outras celebridades tiveram a coragem de falar sobre a sua fibromialgia, pelo que nós estamos imensamente gratos, mas ainda nenhuma super estrela como Morgan Freeman.
Quase de imediato pacientes de fibromialgia e os seus apoiantes começaram a contactar Freeman para ser falar em nome de outros com FM. Até houve o rumor de que uma grande organização o abordou no sentido de ser o seu porta-voz. 
Embora a maior parte da comunidade apoiasse vigorosamente esta ideia, alguns questionaram a validade de Freeman representar os fibromiálgicos. 
Daquilo que li, os que estavam renitentes em aceitar Freeman como porta-voz tinham 3 preocupações:
  1. Será que ele tem mesmo fibromialgia, já que só mencionou dor no braço e ombro esquerdos?
  2. Ele é bastante activo e, por isso, passaria uma imagem errada de quão debilitante a FM pode ser.
  3. Como a maior parte dos fibromiálgicos são mulheres, sendo ele um homem, representaria a maioria dos doentes?

Vamos analisar estas três questões de perto.


Será que ele tem mesmo fibromialgia?
Tenho que admitir que, a primeira vez que li o artigo também eu questionei o facto de o diagnóstico poder estar errado. Quando o reli, reparei que ele disse "Pelo braço acima e pelo braço abaixo. É aí que se torna tão mau. É uma dor excruciante.". Esta frase, "É aí que se torna tão mau" faz-me crer que ele tem outras dores mas a dor no braço é a pior. Durante muitos anos eu poderia dizer o mesmo sobre a minha anca. Embora eu sinta dor generalizada, por todo o corpo, durante quase todo o tempo, era a dor na anca que me fazia sofrer mais.
Também temos que nos lembrar que o objectivo desta entrevista não era o de discutir a fibromialgia de Freeman. O autor reparou, por acaso, nos vários esgares de dor que Freeman mostrou e perguntou-lhe porquê? Claro que o actor apenas mencionou a dor que estava a sentir no momento. Ou talvez ele tivesse falado com mais detalhe mas o jornalista, quando compôs o artigo, tivesse incluído apenas o que lhe pareceu mais importante.

Será uma preocupação válida, esta de Freeman ter ou não fibromialgia?
Absolutamente. Quando pensamos no porta-voz de uma doença, é legítimo que se queira saber se ele realmente tem a doença. Não deveríamos tirar conclusões de, apenas, um depoimento isolado.


O seu nível de actividade não pinta um quadro real da fibromialgia.
As pessoas com FM têm um largo espectro de incapacidades no que diz respeito à sua funcionalidade. Freeman parece ter uma alta funcionalidade já que continua a trabalhar e a jogar golfe. Porém, o artigo menciona o facto de ele se ter visto obrigado a abandonar algumas das suas actividades habituais. Por outro lado, algumas pessoas com FM estão completamente incapacitadas, sem serem capazes das tarefas mais simples. Outros de nós ficam-se ali no meio termo.
Enquanto o nível de actividade de Morgan Freeman não o deixa representar a maioria das pessoas com fibromialgia, talvez parte desta mensagem sirva para descrever como a FM pode ser tão debilitante e sirva para explicar que os doentes têm diferentes níveis de incapacidade.

Como homem, ele não representa a maioria dos doentes. Sinceramente,  eu acho que o facto de ele ser um homem com fibromialgia é um dado positivo. Quer queiramos quer não, quando se trata de questões de saúde, os homens ainda têm mais credibilidade do que as mulheres. Estudos já demonstraram que os profissionais de saúde levam mais a sério os sintomas de um homem e atribuem os sintomas da mulher a causas emocionais. Embora a aceitação da fibromialgia já tenha percorrido um longo caminho nos últimos anos, ainda existem pessoas, incluindo médicos, que não acreditam que seja real. Como tal, tendo um homem tão conhecido e respeitado como Morgan Freeman a falar sobre FM pode ajudar a melhorar a nosssa credibilidade perante os que duvidam.

É um assunto pessoal


Tendo em conta a pressão sobre Morgan Freeman para que ele seja um porta-voz da fibromialgia, pergunto-me se ele desejaria nunca ter mencionado o assunto. Provavelmente nunca pensaria que o facto de mencionar uma palavra no meio de uma entrevista de horas, desse azo a tanta atenção.

Apesar do nosso entusiasmo em ter uma celebridade proeminente como Morgan Freeman falando em nosso nome, penso que temos de pensar no impacto que isso teria na sua vida. Anos atrás as celebridades faziam o impossível para manterem secretos quaisquer problemas de saúde. Revelar uma doença poderia arruinar as suas carreiras.
Embora Hollywood pareça estar um pouco mais sensível hoje em dia, suspeito que ainda haverá alguma hesitação em contratar um actor com um problema de saúde tão exposto. Embora a sua carreira possa já não ser uma preocupação de maior, Freeman parece-me o tipo de homem que prefere não se entregar à dor e ao que já não pode fazer mas sim ultrapassar-se a si próprio e focar-se no que consegue fazer.

Sim, seria fantástico se Morgan Freeman decidisse tornar-se num apoiante para a fibromialgia. Toda a comunidade fibromiálgica o receberia de braços abertos. O seu apoio poderia fazer maravilhas para sensibilizar para a doença e para angariar dinheiro para a investigação científica.
No fundo é uma decisão pessoal - todos temos o direito de decidir o que será melhor para a nossa vida. Embora eu tenha esperança de que ele use a sua fama para ajudar outros fibromiálgicos, respeitarei a sua decisão, seja ela qual for.

Por Karen Lee Richards 
em Outubro 2013
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